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Fontaines DC e o que eu quero ser quando crescer?

Desde que criei esse blog deixei claro a minha intenção de escrever sobre coisas que eu gosto. Acreditava que tinha muito mais coisas pessoais e do meu dia a dia para compartilhar do que meras “baboseiras” técnicas sobre programação, mas parece que me enganei. Entrei na neurose e acabei fazendo todos meus posts sobre coisas que sim, são legais, mas na realidade seriam muito mais para postar no LinkedIn do que coisas que realmente me fazem feliz. E olha que eu nem gosto do LinkedIn…

Olhando pra isso agora percebo que deixei de lado a oportunidade de falar sobre coisas das quais eu realmente me importo. Hoje, na tentativa de fazer as pazes comigo mesmo, vou trazer o que acredito ser uma das maiores delas: a música.

Sempre ouvi muita música, mas normalmente escutava apenas aquelas que já havia ouvido sempre. Até que há mais ou menos um ano venho tentando escutar alguns álbuns por dia de estilos que não necessariamente são familiares para mim. A ideia era explorar mais estilos e escrever por aqui sobre os ouvidos da semana, mas sem necessariamente ter que definir com uma nota ou fazer uma crítica formal. Mais como um diário. Numa dessas andanças pelo Spotify encontrei uma banda irlandesa de pós-punk que faz o melhor som que eu ouvi esse ano. E ouso dizer que um dos melhores, se não o melhor, que ouvi nos últimos anos.

Fontaines D.C. não é uma banda que você encontra por acaso. O som deles é denso, poético e visceral. A voz de Grian Chatten carrega uma intensidade que poucos vocalistas atuais conseguem transmitir mas trazem uma familiaridade por se parecer com outras lendas já conhecidas. As letras são poesia urbana sobre Dublin, sobre a Irlanda, mas num geral sobre a vida e a percepção de uma pessoa jovem em uma cidade que está crescendo rapidamente.

Meu primeiro contato com o som deles e o que realmente me pegou foi o álbum “Skinty Fia”. Lançado em 2022, esse é o terceiro álbum da banda e representa uma evolução significativa no som deles. Mantém a essência do pós-punk, mas adiciona camadas de atmosfera, de melancolia, de algo que eu não consigo definir direito, mas que ressoa profundamente com a poesia que eles imprimem nos sons.

“Skinty Fia” é um álbum sobre identidade, sobre pertencimento, sobre a relação entre o indivíduo e o lugar de onde vem. O título em si já é significativo: “Skinty Fia” é uma expressão irlandesa que pode ser livremente traduzida como “A condenação do veado”, uma escolha linguistica com diversas camadas que vem de um antigo xingamento irlandes. Acredito que a escolha desse nome não foi aleatória, ao usar uma tradução livre de um dialeto irlandês em esquecimento eles recohecem a importancia de manter a linguagem viva mas ao mesmo tempo reconhecem que sua cultura só é aceita quando está diluida.

A ambientação sonora do album é densa e atmosférica. As guitarras constroem camadas de textura que lembram os trabalhos de bandas como Joy Division e The Cure em seus momentos mais sombrios. Há uma qualidade quase gótica nas guitarras, com reverbs e delays que criam um espaço sonoro vasto e melancólico. O baixo tem um peso que ecoa o trabalho de Peter Hook, criando linhas melódicas que funcionam tanto como base rítmica quanto como elemento melódico principal.

A bateria mantém uma precisão quase militar em alguns momentos, mas trazendo levadas simples e sem muitos fills, mas sabe quando abrir espaço e respirar, criando contrastes dinâmicos que dão respiro ao álbum. A instrumentação como um todo evoca uma sensação de claustrofobia, mas de uma forma que evoca uma sensação etérea.

As letras e a escrita de Chatten são onde o álbum realmente se destaca. Antes de ser vocalista, ele era poeta, e isso fica evidente em cada verso. Suas palavras carregam o peso de alguém que cresceu observando a transformação de Dublin, vendo sua cidade natal se tornar irreconhecível enquanto ele ainda tentava encontrar seu lugar nela. Há uma tensão constante entre nostalgia e descontentamento, entre amor e a raiva pelo lugar de onde vem.

O vocalista escreve sobre a experiência de ser irlandês em um mundo que espera que você dilua sua identidade. Sobre crescer em uma cidade que está mudando mais rápido do que você consegue processar. Sobre a solidão de estar cercado de pessoas mas se sentir completamente isolado. Suas letras são ao mesmo tempo pessoais e universais, falando sobre Dublin mas também sobre qualquer lugar onde alguém se sente deslocado, onde alguém tenta encontrar significado em um mundo que parece ter perdido o sentido.

A voz de Chatten, com seu sotaque irlandês marcante e sua entrega quase falada em alguns momentos, tem uma qualidade própria, mais poética, mais consciente de si mesma. Ele não está gritando contra o mundo, está observando-o, documentando-o, tentando entender o que significa viver nele.

Ouvir as faixas pela primeira vez pela primeira vez foi uma experiência estranha. Confesso que me senti hipnotizado e até agora não consigo parar de escutar em loop o album. Admito que não é um álbum muito fácil de escutar quando você encontra ele do nada numa quarta feira de tarde. Requer atenção pra encaixar alguns pontos em outros, requer que você realmente escute e pesquise sobre as letras pra aproveitar ao máximo, mas também funciona muito bem como música de fundo. De qualquer forma quando você se permite mergulhar nele, é recompensador.

A música do Fontaines D.C. me fez pensar sobre como consumo arte. Sobre como às vezes passamos por coisas sem realmente experimentá-las. Sobre como a pressa do dia a dia nos faz perder detalhes importantes.

Mas também me fez pensar sobre identidade. Sobre como todos nós carregamos uma relação complexa com os lugares de onde viemos. Sobre como às vezes nos sentimos desconfortáveis com nossas origens, mesmo quando elas são parte fundamental de quem somos.

Música é uma das formas mais diretas de arte que existe. Não requer tradução, não requer contexto prévio. Você pode não entender as palavras, mas pode sentir a emoção. Pode não conhecer a história, mas pode se conectar com o sentimento.

A banda faz música que é ao mesmo tempo específica e universal. Fala sobre Dublin, sobre a Irlanda, mas também fala sobre qualquer lugar. Fala sobre identidade cultural, mas também sobre identidade pessoal. Fala sobre pertencimento, sobre solidão, sobre a busca por significado.

“Skinty Fia” é um álbum que me fez pensar. Não apenas sobre música, mas sobre como consumo arte, sobre identidade, sobre pertencimento.

Descobrir Fontaines D.C. foi uma das melhores coisas que me aconteceu messe ano. Não apenas porque a música é boa, mas porque me lembrou do porquê eu comecei a explorar novos estilos. Não é sobre acumular conhecimento musical ou sobre parecer culto. É sobre encontrar coisas que ressoam, que fazem sentido, que fazem você pensar e acima de tudo que fazem você sentir e se conectar com a vida que leva.

“Skinty Fia” é um álbum que vou continuar ouvindo indefinidamente. Não porque é perfeito (nada é), mas porque é honesto. Porque é sobre coisas reais, sobre emoções reais, sobre experiências reais.

E talvez seja isso que eu quero ser quando crescer: alguém que ainda consegue se surpreender com o lugar de onde vim, que ainda consegue encontrar significado em coisas novas, que ainda consegue se emocionar com uma música que nunca tinha ouvido antes.

Fora isso… Obrgiado pela atenção, um abraço e até mais!

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